Ok, a senhora que me atendeu no guichê da Emirates disse: "Agora, recolher as bagagens só em Déli". Soou fundo em mim essa frase. Foi como se ela dissesse: "Agora, só falar a língua que não é tua, ir para lugares que tu não conhece, sem ninguém para te ajudar e sem garantia de encontrar ou reconhecer companhias confiáveis". Coragem. Nesses meses, dias e horas antes de entrar no avião eu permaneci, na maioria das vezes, tranquila e, se preocupada com algo, pensava que iria esquecer de levar algo na mala, só isso. Eu sou muito otimista. Confio no mundo e confio no meu taco, mais do que a maioria das pessoas. Deve ser por que eu sou jovem e bem protegida. Nunca o tamanho simbólico da viagem em si se desvelou pra mim, nem de perto (da quilometragem nem tanto, também), mas a ideia de que ir para Índia não era uma coisa banal ou ordinária nunca existiu dentro da minha cabeça. Aos poucos, o ambiente foi me mostrando que eu estava saindo do meu lugar de comodidade e costume no mundo e iria conhecer realidades distintas. De verdade. Ir para os Estados Unidos não foi isso, ir para lugares clássicos da Europa não foi isso. O fato de eu estar sozinha, com certeza, aumenta minha atenção aos detalhes em volta. As pessoas na fila do check-in da Emirates eram tão diferentes umas das outras que quase não parecia que algum dia eles pertenceriam ao mesmo grupo - provavelmente não por interesses comuns ou experiências compartilhadas - a não ser esse, dos passageiros do voo EK0248 para Dubai. Tinha uma moça de olhos puxados, coturnos, vestido de renda branco com uma cauda enorme e duas bagagens: uma lancheira e uma mochila-mala infantil do Bob Esponja. Tem um grupo de sete caras altos, morenos e bonitos sentados do meu lado na praça de alimentação que pelo que eu consegui reconhecer (adivinhar?) falam árabe e agora jogam algum tipo de jogo de cartas que envolve mais palavras e movimentos corporais (como levantar e simular uma cabeçada de futebol) do que de fato olhar as cartas. E o que devo ser eu, uma guria novinha, sozinha, com cara de assustada, imagino, brasileira e "não parece brasileira" como já me disseram dois nesse inicio de viagem e tantas vezes nas minhas outras viagens. Estranha, no mínimo. Vai mundo, me mostra tuas caras loucas, peculiares e comuns. Vai, Luiza, desfaz e refaz tuas imagens de si mesma. Há de promover estranhamento saudável e não-confortável, essa exposição. Tomara que eu tenha fôlego.
Voo para Dubai atrasado: de saída às 3:00 am para às 5:30 am :)
Voo para Dubai atrasado: de saída às 3:00 am para às 5:30 am :)

Lu, que lindo! Adoro essa tua forma poética de escrever. E as descrições, tão literários. Ainda bem que tu vai manter um blog. Enfim, que um grande crescimento pessoal esteja te esperando em Déli. Bjs.
ResponderExcluirQue difícil quando cai a ficha! Mais um post muito bem escrito Lu. Pelo visto, vamos viajar contigo, praticamente! Coisa boa. Que todas as tuas mudanças nessa viagem e todas as novas experiências só somem à pessoa maravilhosa que tu já és. Continua nos mantendo informados. Beijo!
ResponderExcluirLuu, que coisa linda! Com esse blog vamos te ter perto o tempo todo. Nosso coração e nosso imaginário vão estar do teu lado. Me senti carinhosamente viajando contigo ao ler esse post. Nesse momento específico da viagem, o mais legal foi perceber que o que todos tem em comum é não ter nada em comum nesse grupo, o que também vem com a promessa de possibilidade muito maior de crescimento. Que essa viagem tenha pra você o mesmo impacto por que passa a criança quando desbrava ambientes desconhecidos pela primeira vez, sentindo da maneira mais simples e espontânea os lugares por que passa.
ResponderExcluirBem isso Othon! Me senti criança de novo!
ExcluirEnquanto não dormia eu pensava nas recomendações que havia te dado.
ResponderExcluirQuais? Quando!
Ah me lembrei!
Lembrei que te recomendei olhar bem nos olhos pra reconhecer o lobo na pele daquela ovelhinha. Só olhando BEM é que temos certeza de que nunca um olhar tão voraz e mal seria de uma pobre ovelhinha perdida.
Recomendei que respeitasse o tempo e as buscas dos outros quando não podias avisar o esconderijo do ninho do Joãozinho, quando achavas antes, nas nossas buscas ao ninho da Páscoa.
Recomendei que cada um tem uma natureza, quando , ao tentarmos ajudar uma formiguinha a encurtar seu árduo caminho, atrapalhamos não só ela , mas todas ao seu redor
Recomendei que, há frustrações ,por mais que fizermos, às vezes não conseguimos, quando corremos pra salvar aquele passarinho que tentou atravessar o vidro. Aliás! Cuide com as transparências, por vezes são duras.
Recomendei que ficasse bem quietinha enquanto o bicho tutu caminhava no telhado das noites frias de Canela, pois com tranqüilidade os medos passam logo.
Recomendei que quando visse borboletas, reconhecesse fadas que estão no teu caminho, elas tem a cor e o pó mágico da vida!
Recomendei que olhasse pros dois lados ao atravessar a rua enquanto íamos cantando pro colégio. Agora atravessas o mundo. Olhas para os dois lados de ti. O de fora e o de dentro.
Recomendei um olhar diferente pras coisas quando “visitávamos” um divertido zoológico ao darmos a volta na quadra da nossa casa.
Recomendei que visse todas as formas das coisas como na mancha feita, na pipoca estourada, na folha caída, na tinta pingada.
Recomendei que soubesse que tudo se transforma constantemente, como as nuvens nos céus das longas idas e vindas do Alegrete.
Recomendei que a fantasia é importante quando pulamos carnaval o ano inteiro.
Recomendei que sempre viajasse na maionese e agora tu ta viajando no CHAI.
Tua mãe
wow wow... great
ResponderExcluirParabéns Luiza, explorando o mundo! Eu, a tia Rita e o Gabriel estamos torcendo por ti. Beijo!
ResponderExcluirLu, comecei a ler so agora, pois nao tinha internet antes. Eu senti a mesma coisa quando tive de largar minha mala para ser devolvida em entebbe. Minhas coisas, minha materialidade indo embora, nao! Mas a mala chegou. Vou lendo e tentando compartilhar experiencias e sentimentos contigo. Ah, o sentimento de "sou uma pequeninha guria bonitinha e sozinha" nunca foi embora pra mim, o que foi bom mas assustador ao mesmo tempo.
ResponderExcluirUltimo comentario: gostaria de conseguir me expressar com a escrita como tu se expressa, consigo te ver falando as palavras que tu escreve hehe