No Norte!

A viagem de ônibus foi estranha. Eu achava que não estava com sono, mas as dormi umas 6 horas das dez que demoravam para chegar em Jalandhar. Dormi com luz, música pop punjabi alta no dvd do ônibus e a tão famosa sinfonia de buzinas ininterrupta. Paramos apenas uma vez, numa espécie de hotel-parada com parquinho para crianças. Desci do ônibus sonolenta, com muito frio e totalmente perdida. Já era pra eu estar com fome a essa hora, mas nada. Acho que eu fico assim, com os sentidos e necessidades meio suspendidas quando nervosa. O lugar era muito caricato, com tendinhas fake vendendo mel, comidas e frutas. Um dos restaurantes (o maior dos dois que haviam) era totalmente vegetariano, mas não me animei a pedir nada além de um café com leite. Eu só não estava mais deslocada que um velhinho, com a maior pinta de inglês, de camisa branca e um casaco do metrô de Londres, que tomava um milkshake meio desconfiado. Acho que só nos dois nesse lugar não éramos indianos. Além dessa visão esquisita da hotel-parada, as outras que passaram pelas grandes janelas do ônibus não chamaram a atenção. Muitas cidades do interior, todas muito pobres e cor de areia. Chegar em Jalandhar e encontrar Jimmy na parada do ônibus foi um alívio. A minha peregrinação tinha terminado, ufa. Ele veio me buscar com a minha colega de quarto, uma querida chinesinha, Lingrong Ye, que chamamos de Betty. Niguém conseguia falar o meu nome, então eu disse que poderiam me chamar de Lu. Jimmy riu muito e disse que Lu em punjabi quer dizer quente (que como no inglês pode ser quente e, na gíria, gostosa). Ok, ok me chamem como quiserem/conseguirem (agora dentro de casa eles me chamam de Lu, mas na rua, de algo como Liítza). A mãe e o pai da família me receberam tão bem quanto Jimmy, com abraços e boas vindas. Me pediram para sentar na cama com eles (onde também estavam Jimmy e Betty) e perguntaram sobre a viagem, sobre como eu me sentia e falaram que eu agora estava em casa. Ofereceram suco, um computador para falar com a minha família e avisaram que quando eu quisesse Cha chi (a mãe) serviria o jantar pra mim. Muita amados, que bom, vai ser ótimo. A comida de Cha chi é famosa por ser muito boa e eu comi muito (muito mais do que eu como normalmente) em todas as refeições, apesar de até agora não ter sentido fome. Elem não param de me servir coisas diferentes e, gente, é muito diferente mesmo. A base da refeição é o Chapati, uma panquequinha sem ovos, que é usada para recolher com as mãos os outros pratos que podem ser Dahl (lentilha, grão de bico ou feijão cozidos e temperados), conservas em geral (muito boas e picantes, de pelo menos três tipos diferentes) e Raita (iogurte com sal, especiarias e alguma outra coisa como grãos ou frutas). Já estou dominando bem a arte de fazer mini cones com pedaços do Chapati para colocar o resto e boca a dentro. Ficaram animados quando disse que era vegetariana e eu aproveitei e contei causos engraçados que permeiam a vida de vegetarianos no Brasil. Cha chi disse que vai me ensinar receitas se eu acordar antes das oito, que é quando ela começa a cozinhar. Eu não consegui dormir mais do que isso nessa noite em que eu deveria estar cansada, então parece que vai dar. Hoje fomos com Cha cha (o pai) aprender a vender ouro (eles tem duas lojas de jóias na cidade). Era feriado nacional (dia da república aqui) e a loja não teve movimento. Foi muito divertido de qualquer maneira, por que ele ficou fazendo truques de mágica e nos mostrando vídeos do ano novo deles, com todo mundo dançando. O melhor do dia, no entanto, ainda foi a ida ao centro comercial pela manhã. Ele é distante uns dez minutos de casa e fomos de moto até lá. Sentir o vento gelado no rosto nessa manhã clara, podendo ver as pessoas começando seus afazeres matinais, a cidade funcionando e viver mais de perto o transito maluquinho foi extremamente revigorante. Era a vida ordinária para todos e para mim, recém chegada, curioso. Uma sensação muito engraçada de fazer parte do mundo normal indiano (a cidade não é turística nem cosmopolita), se sentir acolhida (graças aos meus queridos anfitriões) e saber, ao mesmo tempo, que nada de mim pertence a esse lugar, a esse modo de vida, a essas pessoas que vivem do outro lado do mundo (tendo como referência o que eu acho que é meu lar). Agora vou descansar um pouco e esperar Cha cha voltar. Ele me prometeu que contaria a história dos Sikhs (a religião da família) e conversaríamos sobre a Índia antiga. Ele parece saber muito de história e tem paciência para explicar tudo. Estou com meu caderninho (viu, Ju) a postos!

aha another great piece of writing...!!!
ResponderExcluirThank you Jimmy, im very glad that you are reading me!
ExcluirAnota as receitas e faz pra nós quando voltar, PLEASE!!
ResponderExcluirQue bom que está usando o caderninho! Anota tudinho. Depois fazemos outra reunião da Índia e tu nos explica, com bolo e suco. Hmmm saudades. Cada post está mais lindo Lu. Quanta novidade boa pra se viver ein!! Muitas saudades já :( quero e-mail, logo. Beujo
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